sexta-feira, 30 de julho de 2021

Pós-Calvinismo: 6. Crentes ou Não?


Por Scot McKnight

 

Tudo sobre as  Passagens de Advertências  em Hebreus depende da audiência: Quem são eles? São crentes ou não?

 

Começo fazendo esta observação: na história da Igreja muitos têm feito distinção entre crente genuíno e crente nominal. Acho essas categorias úteis em alguns contextos. A questão na leitura de Hebreus é se ou não o autor usa tal categoria para explicar sua audiência.

 

Novamente, há muitas coisas a considerar e eu farei uma nota rápida do que ensinei em minhas aulas em Trinity, e (aqui novamente) digo que fiquei surpreso com a quantidade de estudantes que concordou com as conclusões.

 

Em primeiro lugar, o autor geralmente inclui a si mesmo com a audiência quando usa o termo “nós”. 2.1-4; 3.14; 4.1, 11, 14-16; 6.1; 10.19; 12.1-3, 25-29.

 

Em segundo lugar, o autor chama sua audiência de “irmãos”. 3.1, 12; 10.19; 13.22. Talvez 3.1 precisa ser citado: “irmãos santos, participantes da vocação celestial”.

 

Em 2.11-17 temos a seguinte narração sobre o que “irmãos” significa: “Por cuja causa não se envergonha de lhes chamar irmãos [e irmãs], dizendo: Anunciarei o teu nome a meus irmãos [e irmãs], cantar-te-ei louvores no meio da congregação.... Por isso convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos [e irmãs], para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo”.

 

Em terceiro lugar, em 4.3 ele chama sua audiência de “crentes”. Este texto não está distinguindo genuínos de falsos, mas crentes de não-crentes. Os crentes, ele diz, entram no repouso. [Sim, é preciso observar: um crente que entra no repouso persevera. Mas, isto não significa que aqueles que não perseveram não eram crentes, mas que aqueles que não perseveram não entrarão no repouso.]

 

Em quarto lugar, algumas vezes o autor vê sua audiência como “vós”. Isto sugere que ele acha que alguns deles não irão chegar lá. Veja 3.12; 5.11; 12.18-24.

 

Em quinto lugar, 10.29 precisa ser lido cuidadosamente: “De quanto maior castigo cuidais vós será julgado merecedor aquele que pisar o Filho de Deus, e tiver por profano o sangue da aliança com que foi santificado, e fizer agravo ao Espírito da graça?” Aqui o “vós” pisou o Filho de Deus, e profanou o sangue, e (já) foi santificado pelo sangue, e está fazendo agravo ao Espírito.

 

Em sexto lugar, em 2.3-4 o autor relata a experiência da conversão deles; em 6.10 eles são aqueles que têm mostrado amor em nome de Cristo; em 10.22 eles tiveram seus corações purificados e sido limpos de uma má consciência; em 10.32-34 vemos evidência de suas contínuas perseguições.

 

Colocado junto, tudo isso indica uma plena experiência cristã: conversão, dons e manifestações do Espírito Santo, a obra da morte de Cristo e um compromisso da comunidade cristã.

 

Em sétimo lugar, agora brevemente sobre 6.4-6: o autor afirma que aqueles que atingiram um certo nível e regressaram não podem ser restaurados para arrependimento. (É um comentário singular; ele é sério.)

 

Iluminados: veja 10.32. Um termo para a conversão cristã inicial.

Provaram...: veja 2.9; 6.4, 5. Isto não significa “provar” superficialmente, mas é uma metáfora para “experiência”. Veja em 2.9 – ninguém meramente prova superficialmente a morte; significa morrer.

Participantes do Espírito: refere-se a uma experiência cristã inicial do Espírito Santo.

Provaram a palavra...: novamente, experimentaram os poderes da Palavra de Deus.

 

Novamente, colocando estes versículos todos juntos: uma plena experiência cristã.

 

Aqui está meu sumário: de fato, o autor vê sua audiência como mista. Mista no sentido daqueles que irão perseverar e daqueles que não irão. Não mista no sentido de insinceros e genuínos. Não há nenhuma sugestão no livro dessa última categoria, mas há muita da primeira. Há todo tipo de evidência que ele pensava que alguns perseverariam e outros não; ele nunca sugere que aqueles que não perseveram são insinceros. Há uma grande diferença.

 

Minha conclusão é esta: o autor de Hebreus via sua audiência como crentes, mas sabia que alguns iriam cair em apostasia, ou tinham caído, ou poderiam cair. Para aqueles que caíam, não haveria nenhum repouso final. A implicação é que um crente pode cair em apostasia.

 

Quando eu ensinei isto, fiquei surpreso com o número de estudantes que concordou. De fato, eu disse a eles que eu fiquei surpreso. Esta visão de Hebreus não é característica entre os tipos de evangélicos que tínhamos em Trinity, embora seja comum entre evangélicos wesleyanos e outros como eles. E, também ficou claro que eu não dei melhores notas àqueles que concordaram comigo: de fato, as melhores provas que li foram daqueles do lado calvinista, por causa do desafio que estas conclusões lhes trouxeram. Posso dizer que aquelas classes no TEDS [Trinity Evangelical Divinity School] foram algumas das melhores classes que eu lecionei. Uma expressão de natureza teológica, pastoral e pessoal enchia o ar.

 

Amanhã (ou hoje mais tarde se encontrar tempo) responderei esta pergunta: “E Daí?”.

 

Fonte:  http://www.patheos.com/community/jesuscreed/2005/08/02/post-calvinism-believers-or-not/

 

Tradução: Paulo Cesar Antunes 

Pós-Calvinismo: 5. Pecado


Por Scot McKnight

 

No final das contas, as questões nas  Passagens de Advertências  em Hebreus se resumem a (1) com que pecado o autor está tão preocupado e (2) quem é a audiência. Nesta mensagem, irei analisar o  pecado  que o preocupa.

 

Todos concordamos (geralmente) com as consequências expressas e a exortação à perseverança. Mas o pecado não é tão suscetível de acordo.

 

Quando dava aulas sobre estas passagens, eu descobria que a maioria dos estudantes concordava comigo sobre isto. Posso também dizer que a questão da natureza deste  pecado  me incomodava e incomoda muitos outros.

 

A lista das palavras que o autor usa para este pecado nas Passagens de Advertências é longa, e eu quero apresentar uma listagem bastante completa exatamente para sermos justos com o texto e dessa forma podermos ter uma melhor visão daquilo com que estamos tentando lidar.

 

2.1: desviemos

2.2: transgressão

2.2: desobediência

2.3: não atentarmos para uma tão grande salvação

3.8: endureçais os vossos corações

3.8: provocação

3.8-9: tentação

3.10: erram em seu coração

3.10: não conheceram os meus caminhos

3.12: coração mau e infiel

3.12: se apartar do Deus vivo

3.16: provocaram

3.17: pecaram

3.18: desobedientes

4.1: fica para trás

4.2: nada lhes aproveitou… não estava misturada com a fé

4.11: caia

5.11: negligentes

6.6: recaíram

6.6: de novo crucificam o Filho de Deus, e o expõem ao vitupério

10.25: não deixando a nossa congregação

10.26: pecarmos voluntariamente (cf. Nm 15.22-31)

10.27: adversários

10.28: Quebrantando

10.29: pisar o Filho de Deus

10.29: tiver por profano o sangue da aliança

10.29: fizer agravo ao Espírito da graça

10.35: rejeiteis a vossa confiança

10.39: se retiram

12.1: pecado que nos rodeia (isso faz parte? – não sei ao certo)

12.3: não enfraqueçais, desfalecendo em vossos ânimos

12.5: esquecestes da exortação

12.15: se prive da graça de Deus

12.15: raiz de amargura (?)

12.25: rejeiteis ao que fala

12.25: nos desviarmos

 

Uma lista imponente, sem dúvida alguma. Devemos observar que o autor escolheu evitar um único termo para este pecado. Alguns destes termos são mais metafóricos que outros, mas quando os estudamos corretamente, eu acredito que podemos dizer o seguinte:

 

O pecado que o autor está alertando é uma rejeição intencional do Deus trino – Pai, Filho e Espírito – e uma denúncia notória dos padrões morais deste Deus. Este pecado é  deliberado. (Ele não surpreende a pessoa quando ela menos espera.) Em segundo lugar, ele é  trinitário. Em terceiro lugar, é  manifestamente moral.

 

(Para muitos, este pecado é o retorno ao Judaísmo. Há muito pouca evidência para isto, e muitos estão sabiamente dizendo hoje que o autor está preocupado com  quem eles estão abandonando, e não  para onde eles estão se dirigindo.)

 

O termo que eu prefiro para este pecado em Hebreus é apostasia. Este é um pecado cometido por aqueles que são cristãos – e amanhã irei escrever sobre o que isso pode significar. Este pecado é o abandono da fé cristã, de uma ativa confiança em Jesus Cristo, etc. Fico impressionado (exegeticamente, não moralmente) com 10.29: estas pessoas “zombam” (insolência  é uma boa tradução aqui) de Cristo. Isto não diz respeito àqueles que “se perguntam” se cometeram este pecado; é algo que estas pessoas sabem que cometeram e estão orgulhosas disto.

 

Em resumo, novamente, uma síntese das Passagens de Advertências lança luz para entendermos a questão.

 

Isto irá nos ajudar a entender a audiência? Penso que sim. Foi esta questão e a resposta de meus estudantes a ela que mais me surpreendeu.

 

Fonte:  http://www.patheos.com/community/jesuscreed/2005/08/01/post-calvinism-sin/

 

Tradução: Paulo Cesar Antunes

Pós-Calvinismo: 4. Exortação


Por Scot McKnight

 

As Passagens de Advertências de Hebreus, que vem inquietando tanto crentes comuns quanto estudiosos profissionais há séculos, têm quatro elementos: a audiência, o pecado, a exortação e as consequências. Examinaremos hoje a exortação. Em minha própria jornada, este tópico era mais crítico do que eu percebia, e ele é mais importante do que muitos parecem pensar. Trata-se de perseverança.

 

Aqui estão alguns termos que o autor usa pelo qual ele espera que sua audiência faça ao invés de apostatar-se:

 

2.1: atentarmos mais diligentemente

3.6, 14; 10.23: conservarmos firmes

3.13: exortai-vos uns aos outros

4.1: temamos

4.11: procuremos diligentemente

4.14: retenhamos firmemente

6.1: prossigamos até a perfeição

10.35: não lanceis fora a vossa confiança

10.36: necessitais de perseverança

12.1: corramos com perseverança

12.7: é para disciplina que sofreis

12.12: levantai as mãos cansadas, e os joelhos vacilantes

12.15: tendo cuidado de que ninguém se prive da graça de Deus

12.25: vede que não rejeiteis

 

Se fôssemos escolher um termo para colocar tudo isso em um, ele seria “perseverança” ou “fidelidade”. Ela é tanto mental quanto pessoal: tanto sabemos que Deus é fiel quanto ativamente nos entregamos à graça e capacitação de Deus.

 

Tanto os calvinistas quanto os arminianos concordam com este ponto: cada um precisa perseverar. Algo bem estranho tem acontecido no evangelicalismo americano: ele vem ensinando, se num tom alto ou não, a ideia do “uma vez salvo, sempre salvo” como se a perseverança não fosse necessária. Em outras palavras, ele vem ensinando que se uma pessoa começa, mas depois decide deixar de viver para Cristo, essa pessoa está eternamente segura. Isso é tolice. A perseverança é um indicador do que se trata a fé: uma relação duradoura, marcada por um amor invariável. Ninguém iguala o casamento a uma afirmação de propósito no dia da cerimônia, e ninguém deve igualar a fé a uma decisão.

 

O que significa perseverar? Significa que continuamos a crer, que vivemos dessa forma. Não significa impecabilidade; não significa que sejamos constantemente inclinados à santificação; não nega o tropeço ou a espiritualidade desordenada. Não nega a dúvida e os problemas. Simplesmente significa que a pessoa continua a caminhar com Jesus e não se distancia dele.

 

As duas próximas mensagens serão grandes: qual é o pecado e quem é a audiência?

 

Fonte:  http://www.patheos.com/community/jesuscreed/2005/08/01/post-calvinism-exhortation/

 

Tradução: Paulo Cesar Antunes