segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Deus Se Importa Com as Pessoas: Uma Perspectiva Pentecostal de Lucas/Atos

  

Craig S. Keener

 

Everett e Esther Cook eram plantadores de igrejas pentecostais, aposentados, do oeste dos Estados Unidos. Eu os encontrei quando estavam à frente do Springfield Victory Mission, em Missouri, utilizando a renda da aposentadoria da Brother Cook. Everett e Esther Cook mentorearam alguns alunos do Central Bible College, inclusive eu. Eu ajudava na missão, colocando em prática o que estava aprendendo com a Bíblia e com o livro de Ronald Sider intitulado Rich Christians in Age of Hunger (Cristãos Ricos em Tempos de Fome).

 

O ministério dedicado aos pobres tem sido sempre uma ênfase pentecostal importante – a começar no Dia de Pentecostes. Depois do primeiro derramar do Espírito de Deus e da pregação pentecostal de Pedro, os cristãos passaram a viver sob a outorga de poder pelo Espírito (At 2.41-47). Isso incluía não somente sinais e maravilhas, oração corporativa e devoção ao ensino dos apóstolos, mas um estilo de vida radicalmente novo de servir e compartilhar. Porque aqueles cristãos amavam seus irmãos cristãos mais do que amavam suas posses, estavam predispostos a dividi-las para atender a necessidade de outros (At 2.44). Sempre que alguém se encontrava em necessidade, aqueles que possuíam mais que o suficiente para viver vendiam o que tinham a mais para atender à necessidade de outros (2.45). Quando lemos a respeito de koinonia (comunhão) em Atos 2.42, às vezes pensamos somente em bater um papo depois de um culto (agradável como é), porém, os “irmãos” cristãos iam além do mero bate-papo para se envolverem profundamente na vida e na necessidade uns dos outros. O termo grego koinonia aparece em documentos comerciais antigos para parceiros econômicos e acionistas e, às vezes, carrega este significado no Novo Testamento também (2Co 8.4; 9.13). Paulo comumente utilizava o verbo com este significado (Rm 12.13; 15.27; Gl 6.6, Fp 4.15).

Depois de a igreja orar, ao enfrentar perseguição, para que lhes concedesse coragem através de sinais e maravilhas, Deus derramou Seu Espírito mais uma vez. Um dos resultados deste derramamento foi os cristãos novamente cuidarem dos necessitados entre eles (4.31-37). Este padrão de cuidado com os pobres prosseguiu no Livro de Atos (por exemplo, 9.36-39), finalmente atravessando fronteiras culturais para servir outros grupos de necessitados cristãos na mesma cidade (6.1-6) e em fronteiras geográficas para servir igrejas necessitadas em outras localidades (11.29-30; 24.17). Esse ministério prosseguiu além da conclusão do Livro de Atos e além da preocupação com os irmãos cristãos (exemplo: Tg 5.4-5, Am 2.1), embora necessariamente tivesse que começar lá. Em meados do século II, os pagãos ricos começaram a instigar os cristãos a não cuidarem somente de seus próprios pobres, mas também os do mundo pagão. Enquanto os pagãos ricos reclamavam, a Igreja estava convertendo a maioria empobrecida de seus impérios.

Onde os primeiros cristãos aprenderam a servir uns aos outros dessa maneira? O Espírito deu-lhes o poder para sacrificar em prol do Reino. O aspecto mais proeminente de Seu fruto em nossas vidas é o amor (Gl 5.22). Mas o ensino e o exemplo de Jesus mostravam-lhes como o amor pode ser concretamente expresso e o Evangelho Segundo Lucas apresenta este ensino com riqueza de detalhes. Porque Lucas escreveu para que fossem lidos juntos o Evangelho Segundo Lucas e o Livro de Atos, conseguimos entender melhor o estilo de vida radical de serviço compassivo da primeira igreja pentecostal, e o que as nossas igrejas deveriam ser, examinando-se o ensino do Evangelho que a conduzia a isso.

 

A MISSÃO DE JESUS PARA O POBRE

 

Os escritores antigos, assim como os modernos, normalmente pautavam logo no início sua tese central e sintetizavam os pontos centrais em seus trabalhos. Muitos eruditos consideram Lucas 4.18-27 como o sermão programático do Evangelho Segundo Lucas, da mesma forma que Atos 1.8 e 2.17-21 expõe os temas a serem tratados no Livro de Atos. Os temas desta passagem (Jesus sendo ungido pelo Espírito, At 4.27; 10.38) são apresentados mais tarde em Lucas-Atos. A menção a Jesus pelo ministério de profetas anteriores para uma viúva estrangeira e um leproso prefigura não somente Seu próprio ministério a viúvas e leprosos no Evangelho (por exemplo, Lc 5.12-13; 7.12), mas também o ministério da Igreja para gentios no Livro de Atos. Jesus cumpriu a promessa de Isaías de que Ele pregaria as boas-novas aos pobres (Lc 6.20-25) e, mais tarde, disse a João que os sinais do Reino incluem os pobres ouvindo as boas novas (Lc 7.22).

Como a missão de Jesus no Evangelho Segundo Lucas nos afeta? Porque o batismo de Jesus no Espírito e a missão no Evangelho Segundo Lucas prefiguram a experiência e o ministério da Igreja em Atos, Seu modelo e missão permanecem válidos para Seus seguidores. Embora o enfoque no segundo volume de Lucas seja especialmente o evangelismo transcultural com outorga do Espírito (missões, At 1.8), o ministério aos pobres que sucedeu os derramamentos do Espírito demonstram que esta ênfase no Evangelho permanece válida para a igreja de hoje também (At 2.44, 45; 4.32-34). Nós somos chamados primeiramente para evangelizar o mundo; mas somos chamados também para cuidarmos do mundo que estamos evangelizando.

Jesus anunciou Sua missão baseado em um texto das Escrituras extraído de Isaías (Is 61.1-2 em Lc 4.18, 19). Seus ouvintes, conhecedores também do Livro de Isaías, estariam portanto familiarizados com a ênfase do profeta em cuidar dos pobres e estabelecer justiça na sociedade. Se Israel negligenciasse estas questões, seus rituais religiosos não impressionariam a Deus de forma alguma e Ele não consideraria suas orações (Is 1.11-17; 58.5-7). Isaías denunciou aqueles que estavam oprimindo o pobre (por exemplo, Is 10.2), preocupados somente com acumular mais para si (Is 5.8); exortou os líderes da sociedade, que deveriam ter estabelecido justiça com maior responsabilidade (Is 3.14, 15). Outros profetas também vindicavam justiça, inclusive Amós, um dos contemporâneos de Isaías (por exemplo, Am 2.6, 7). Tanto quanto Isaías, Amós arrazoava que os sacrifícios e a religião exterior são vãos, a menos que trabalhemos para transformar a sociedade moralmente, estabelecendo justiça para aqueles que estão sendo maltratados (Am 5.21-24). Assim como o primeiro público de Jesus, nós estamos familiarizados com outras passagens relevantes dos profetas; por exemplo, defender os direitos dos necessitados é intrínseco ao nosso relacionamento com Deus (Jr 22.16). Entre os pecados de Sodoma estava o de ignorar o pobre (Ez 16.49); e mesmo um reino pagão poderia estender sua longevidade ao demonstrar misericórdia para com os necessitados (Dn 4.27).

O público de Jesus na sinagoga estava também familiarizado com uma passagem anterior na Lei, à qual o próprio Isaías pode ter feito alusão. A “liberdade aos cativos” e o “ano do Senhor” de Isaías 61.1, 2 deveria ecoar como ensino bíblico sobre o Ano do Jubileu (Lv 25). Porque a economia de Israel antigamente era agrária, baseada na propriedade da terra, somente aqueles que detinham terra poderiam ter a esperança de gerar seu próprio sustento. Quando algumas pessoas no mundo antigo provavam-se incapazes de sustentar a si mesmas ou eram vendidas como escravas para liquidar suas dívidas ou a porção de terra do qual dependiam era vendida. Enquanto em Israel predominava o mesmo sistema, Deus lhe reservava um plano especial. Uma vez em cada geração, todas as dívidas eram baixadas. Significava que cada geração poderia recomeçar e todo mundo partiria da mesma base para gerar seu sustento. A pobreza não se tornava um ciclo entre as gerações que mantivesse uma classe inteira de pessoas reféns permanentes de uma subclasse. Não vivemos de fato em uma sociedade agrária; para muitas pessoas hoje a educação, o conhecimento de informática e outras fontes são mais relevantes para se ganhar a vida do que a terra. Porém, os princípios básicos de buscar justiça para o nosso próximo permanecem os mesmos.

Jesus mencionou este texto porque descrevia acuradamente a Sua missão. Isaías falou sobre o ungido pelo Espírito para Sua missão e Jesus havia acabado de experimentar esta unção. O Espírito desceu sobre Jesus em Seu batismo (Lc 3.21, 22), conduziu-O ao deserto (4.1), onde foi provado, e O fez retornar (4.14). Jesus também ministraria aos grupos apresentados por Isaías: os pobres, os cativos (Lc 13.15, 16), o cego (7.21, 22; 18.35-43) e o oprimido (incluindo outros grupos marginalizados). Destes grupos, o Evangelho Segundo Lucas enfoca especialmente os pobres. A ênfase de Jesus no cuidado para com o necessitado em Seu exemplo e ensino explica porque os primeiros cristãos depois do Pentecostes sabiam como levar adiante sua missão.

 

ENSINOS SOBRE PARTILHAR RECURSOS NO EVANGELHO SEGUNDO LUCAS

 

João Batista, que preparou o caminho para Jesus, pregou o arrependimento como o caminho para preparar para a vinda do Reino (Lc 3.3-8), exatamente como Pedro pregaria no dia do Pentecostes (At 2.38). O que envolvia este arrependimento, em termos práticos? Quando as multidões fizeram a João esta mesma pergunta, ele respondeu que a pessoa que tivesse duas túnicas deveria dar uma a quem não tivesse nenhuma (Lc 3.10, 11). Alguns campesinos que ouviam João poderiam ter uma túnica somente, mas muitos poderiam ter duas. Podemos imaginá-los sentindo-se desconfortáveis com este pedido de sacrifício.

Leitores modernos costumam interpretar a passagem como hipérbole (isto é, uma afirmação retórica exagerada para reforçar um ponto). É, na verdade, possível ler esta passagem como hipérbole, mas somente se mantivermos em mente que o propósito da hipérbole seja o de comunicar graficamente um ponto básico, não permitir que simplesmente releguemos o ponto, dizendo: “Esta passagem é apenas uma hipérbole!”. O ponto de pregação de João é o que precisamos para cuidar de outras pessoas mais do que cuidamos de nós mesmos; e, se tivermos mais que o necessário, devemos estar prontos para compartilhar com aqueles que têm menos do que precisam.

Em uma cultura onde as pessoas avançavam convidando amigos ou outras pessoas honoráveis para banquetes, Jesus enfatizou convidar os pobres e renegar os que não poderiam reembolsar seus anfitriões (Lc 14.13-21). Como recursos compartilhados com os necessitados que ajuntaram tesouro no céu (12.33-34), os convites para esta ceia procuravam uma recompensa mais elevada que aquela disponível nesta terra. Convide aqueles que não podem recompensar você, disse Jesus, e Deus lhe recompensará no julgamento (14.14). Quando enviou seguidores para Sua primeira missão evangelística, Jesus instruiu-os a curar os enfermos e também a viajarem com simplicidade, vivendo com a simplicidade dos pobres em meio aos quais estariam ministrando (Lc 9.3; 10.4). (Aproximadamente entre 70 e 90% dos galileus eram camponeses empobrecidos. Pescadores não eram homens tecnicamente ricos, mas estavam em melhor situação que muitos outros galileus). Era para focarem no serviço e não no status ou na remuneração.

Embora mostrasse grande compaixão pelos necessitados e recebesse de bom grado os pecadores confessos, Jesus era muito mais severo com as pessoas que se davam por satisfeitas em termos sociais ou religiosos. Quando estou mais satisfeito, fico com frequência mais complacente e preciso de palavras mais firmes para dimensionar a minha atenção. Eu desconfio que muitas outras pessoas, lá atrás e ainda hoje, ficam semelhantemente mais expostas a riscos quando a vida torna-se confortável. Felizmente, Jesus não poupou palavras que mexessem com a complacência de seus ouvintes. Ele falou sobre um tolo rico que acumulava bens em lugar de cuidar da necessidade do próximo; ao invés de ajuntar tesouro para si mesmo no céu, ele deixou para trás sua riqueza quando foi para o inferno (Lc 12.16-21). Jesus não nos diz exatamente porque um outro homem rico foi para o inferno (Lc 16.23), mas se fornece qualquer dica, esta se trata de que o homem deixou Lázaro literalmente morrer de fome no beiral de sua porta. Jesus dirigiu a parábola a alguns religiosos não salvos que “amavam o dinheiro” (16.14). Que alguém muito pobre morra de fome em nossa porta não necessariamente livra-nos de embaraços. Nossa sociedade é tão sofisticada que permite os mortalmente pobres perto de nossas portas, porém, se conhecermos tais necessidades, permanecemos responsáveis.

Os conselhos de Jesus para cuidarmos dos pobres não implicam que sejamos justificados por obras; a Bíblia é clara ao dizer que somos justificados pela fé somente. Mas conhecemos muitos crentes nominais, pessoas que se denominam cristãs ainda que nunca o demonstrem pelo seu modo de viver. Para todos os escritores do Novo Testamento, a genuína fé salvadora, como a genuína compaixão cristã, deve ser expressa de maneiras concretas. Tiago alerta que a fé não acompanhada por ação concreta não é a genuína fé salvadora (Tg 2.14). Ele ilustra esta verdade ao perguntar: “Se um irmão ou uma irmã não tiver roupa para vestir nem comida para comer e um de vocês disser: ‘Que você fique bem, que você seja aquecido com roupas e que seja satisfeito com comida’, mas não fornece nenhuma assistência prática, que ajuda concreta deu? Assim também a fé sem obras para a demonstrar é morta”. (Tg 2.15-17, paráfrase minha).

A pregação de Jesus tampouco significa que Ele fosse contrário ao rico. Não se trata de o quanto de dinheiro se pudesse ter, mas do que fazer com o que se tinha. Jesus despendia tempo considerável ministrando a coletores de impostos. Embora social e moralmente marginalizados, esses coletores não eram em geral marginalizados economicamente.

Eles sempre tomavam uma porção farta do que Roma ou Herodes Antipas exigia dos pobres e eram, às vezes, brutais na arrecadação de fundos. Algumas vezes ficaram conhecidos por bater em velhas senhoras para descobrir onde estavam seus filhos, responsáveis pelo pagamento de impostos, que haviam fugido. Sua má reputação crescia de tal forma que algumas vilas no Egito, deixando de pagar os próprios impostos, abandonavam suas casas e começavam novas vilas em quaisquer outros lugares ao ouvirem que os coletores de impostos estavam chegando. Os coletores de impostos estavam entre as pessoas ricas que oprimiam os camponeses galileus a quem Jesus também ministrava, porém Jesus estendeu o braço para os coletores também.

Jesus disse que uma pessoa rica passar para o Reino era como um camelo passar pelo buraco de uma agulha. (Apesar de os melhores esforços de alguns escritores modernos para contornar isto, o buraco de uma agulha significava a mesma coisa que significa hoje: o proposto portão de Jerusalém “buraco da agulha” não estava construído até a Idade Média). Jesus provavelmente estava recorrendo a uma hipérbole, entretanto, porque alguns ricos não O haviam seguido. Zaqueu, um rico coletor de impostos, deu metade de seus bens aos pobres e ofereceu-se para restituir quatro vezes mais a quem havia ludibriado (o que possivelmente diminuiu uma porção considerável da outra metade; Lc 19.8). O rico José de Arimateia foi além do compromisso dos discípulos mais imediatos de Jesus perguntando diretamente a Pilatos sobre o corpo de Jesus. Identificar-se publicamente com alguém crucificado acusado de traição (clamando ser “Rei dos Judeus”) era arriscar a vida, mesmo que pertencesse à aristocracia.

 

AS EXIGÊNCIAS DE JESUS PARA TODOS OS DISCÍPULOS

 

Tampouco deveríamos supor que Jesus faz exigências somente para os ricos. Normalmente nós temos nossas maneiras de ler as exigências de Jesus lá atrás sem pensar que tenham qualquer coisa a dizer-nos. Assim como pontuou Dietrich Bonhoeffer, quando Jesus ordenava a um legislador rico que desse todos os seus bens aos pobres (Lc 18.22), normalmente despendemos mais tempo explicando que Jesus estava dirigindo-se somente a aquele legislador do que nos perguntando que implicações o versículo poderia ter para nós. Bonhoeffer era um teólogo alemão que morreu por sua campanha contra Hitler. Ele leu a Bíblia com a mesma coragem que viveu, reclamando que muito frequentemente os teólogos ajudam a contornar os ensinos de Jesus ao invés de ajudarem a obedecê-los.

Contrário ao que normalmente assumimos, Jesus falou não somente àquele jovem rico, mas a todos os Seus discípulos, para que vendessem seus bens e ajuntassem tesouros no céu (Lc 12.33). Jesus não achava, como alguns têm alegado, que o dinheiro era mau; antes, o dinheiro simplesmente não tinha valor comparado aos investimentos eternos que podemos fazer na vida de outras pessoas (Lc 16.9-13). Ele prometeu que Deus suprirá nossas necessidades se buscarmos o Seu reino (12.22-32) e convidou a nos prepararmos para o Reino investindo parcialmente nossos recursos naquilo que realmente importa (12.33-40).

Charles Finney, um evangelista do século XIX que levou talvez um milhão de pessoas a Cristo, pregou sobre Lucas 14.33 em uma rica igreja de Boston. Nesta passagem, explicando o custo do Reino, Jesus alertou que ninguém pode ser Seu discípulo aquele que não renunciar às suas posses (14.33). O pastor, Lymam Beecher, encerrou o sermão de Finney assegurando à congregação que Deus jamais lhes pediria que desistissem de suas posses; eles simplesmente precisavam estar “desejosos” de fazê-lo. Finney disse que Deus pode exigir de nós o que quiser; nós não perdemos todos os nossos bens no momento da conversão, mas perdemos a propriedade sobre eles. Finney entendia que se Cristo for verdadeiramente Senhor de nossa vida, Ele é também Senhor de tudo o que temos.

Assim como pescadores e primeiros discípulos de Jesus (Lc 5.10,11), muitos de nós no ministério deixamos para trás carreiras alternativas potencialmente lucrativas para atender ao chamado de Deus; temos mostrado que valorizamos o Reino acima dos tesouros da terra. Além disso, é mais confortável até mesmo para nós olharmos a outra forma em vez de dolorosamente confrontar o sofrimento além das esferas imediatas de ministério.

Segundo algumas estatísticas, 35.000 crianças morrem diariamente de má nutrição e doenças passíveis de prevenção, mas esses números são insensíveis e abstratos demais para que nos atenhamos emocionalmente. Para colocar estas questões em uma perspectiva um pouco mais gráfica, nós ficamos com razão exasperados no assassinato de 3.000 seres humanos nas Torres Gêmeas na cidade de Nova York. Porém, 35.000 é mais que dez vezes o número de crianças morrendo todos os dias. A distância não deveria diminuir a compaixão; Paulo incitava a igreja em uma parte do mundo a cuidar da igreja em outras partes do mundo (Rm 15.26; 2Co 8.13, 14).

As estatísticas não são tão tenebrosas em nosso próprio país, mas para centenas de milhares de pessoas sem teto, incluindo adolescentes fugitivos frequentemente forçados à prostituição, as implicações aqui não são menos perturbadoras. Por mais úteis que as estatísticas sejam, a Palavra de Deus e nosso engajamento com a genuína necessidade humana nos moverá mais que qualquer soma de estatística consegue, porque Deus colocou o Seu amor em nossos corações. As Escrituras lembram-nos que Cristo deu Sua vida por nós e perguntam como podemos nos recusar a cuidar de nossos irmãos e irmãs em Cristo necessitados (1Jo 3.16, 17). Nos anos iniciais na missão em Springfield, Missouri, e nos anos mais recentes de ministério, vivendo em alojamento de projetos normalmente pobre e infestado de drogas, deparei-me com rostos que eu não poderia ignorar com a mesma facilidade que consigo alhear-me das estatísticas.

Jesus chama para sacrificarmos nossas vidas pelo Seu Reino; parte do que significa servir ao Seu Reino é encontrar a necessidade humana, porque as pessoas são o que duram para sempre, se forem pessoas que já são nossos irmãos e irmãs que Deus deseja que sejam (isto é, todo mundo; 1Tm 2.4; 2Pd 3.9). A partir de ministérios como o Teen Challenge to Calcutta’s Mission of Mercy (Desafio Jovem para a Missão de Misericórdia de Calcutá), nossas obras de compaixão também revelam Cristo em formas que chamam a atenção do mundo para o nosso Mestre. Possa o Espírito outorgar-nos poder hoje, como no primeiro Pentecostes, para revelar Seu coração ao mundo.

 

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Dale Moody - O Propósito do Amor de Deus

 

28 E sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. 29 Porque os que dantes conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos; 30 e aos que predestinou, a estes também chamou; e aos que chamou, a estes também justificou; e aos que justificou, a estes também glorificou.

 

A ordem das palavras, no texto grego, é “daqueles que amam a Deus” precedida de “sabemos”, e isto é de primordial importância para a interpretação. Murray chamou corretamente isto de “posição da ênfase”. Muitos dos comentários depreciam a ênfase no amor do homem por Deus, mas essa maneira de pensar é tendenciosa. É claro que Deus amou o homem antes de o homem amar a Deus, mas Deus opera o seu propósito apenas naqueles que reagem de maneira positiva ao seu amor. Deus derrama o seu amor nos corações daqueles que reagem com fé (5:5).

O eco de Isaías 64:4 afirma que o homem natural é incapaz de conceber “as (coisas) que Deus preparou para os que o amam” (I Cor. 2:9). Deus conhece os que o amam (I Cor. 8:3), e a pessoa é condenada se “não ama ao Senhor” (I Cor. 16:22). Dificilmente pode-se menoscabar algo em uma bênção como esta: “A graça seja com todos os que amam a nosso Senhor Jesus Cristo com amor incorruptível” (Ef. 6:24). Todavia, isto é impossível independentemente do amor de Deus manifestado em Cristo (cf. Deut. 6:4).

Sabemos expressa convicção segura, não apenas de Paulo, mas de toda a Igreja. O estado do texto grego, por detrás das palavras todas as coisas concorrem para o bem, tem dado azo para três interpretações diferentes. A versão antiga da IBB diz “todas as coisas contribuem juntamente para o bem”. Esta é uma possível tradução do grego. Porém, ela é difícil de se harmonizar com a ênfase de Paulo da iniciativa e soberania de Deus. As coisas simplesmente não contribuem desta forma, como tão otimistamente presumia o panteísmo estóico. Este versículo é de um monoteísmo radical, em que Deus está encarregado das coisas! A tradução inglesa New English Bible (NEB) revive o que Bruce chama de “uma antiga e atraente interpretação, que em geral tem merecido pouca atenção dos tradutores e comentaristas, de acordo com a qual o sujeito de ‘concorrem’ é o sujeito do versículo anterior – o Espírito”. A ideia do Espírito cooperando com os que amam a Deus é certamente verdadeira, mas é duvidoso que ela chegue perto do significado original, tanto quanto a versão inglesa Revised Standard Version (RSV), na qual se baseia o original inglês deste comentário. A RSV diz: “Sabemos que em todas as coisas Deus opera para o bem dos que o amam” (v. 28a).

Deus trabalha com os que o amam em direção do alvo do bem. Murray insiste que isto é tudo “monergismo divino”, mas o verbo grego é sunergei, do qual provém a ideia de um sinergismo entre a vontade de Deus e a vontade do homem. A tradição agostiniana-calvinista introduz as suas ideias, mesmo que seja para rejeitar a própria palavra do texto! Monergismo não é melhor do que panteísmo, pois ambos destroem a distinção entre Deus e a sua criação. Os que são chamados segundo o seu propósito são os mesmos que amam a Deus, e há uma correspondência humana ao chamado divino, da mesma forma como há uma reação humana ao amor de Deus. Sem esta reação, o propósito de Deus não se cumpre no homem, e o homem perece. Aqueles que foram chamados para pertencer a Jesus Cristo e “chamados para serem santos” (1:7) são chamados por Deus (9:11). O chamado ou vocação é a realização do propósito eterno de Deus na história (cf. Ef. 1:11; 3:11; II Tim. 1:9). O propósito de Deus é a vontade de Deus, e é a vontade de Deus que o Espírito de Deus procura realizar no homem (cf. 8:27).

À medida que o pensamento se volta do propósito de Deus em toda a criação (todas as coisas) para o propósito de Deus no crente, há também uma mudança de direção do amor do homem para com Deus para o amor de Deus para com o homem (v. 29). Algumas pessoas têm pensado que está presente, neste versículo, uma fórmula batismal em forma de hino. Isto pode ser verdade, mas a forma não é a mesma do versículo seguinte. A forma é bastante semelhante à do versículo anterior. A predestinação ou conhecimento prévio, a primeira das quatro grandes ideias do verso 29, significa que Deus amou o homem antes que o homem amasse a Deus (cf. I João 4:19). Da mesma forma como um pai conhece e ama o seu filho antes que este chegue a conhecê-lo e amá-lo, Deus age para com os seus filhos. Muitas pessoas ainda seguem a ideia de Orígenes, de que Deus predestinou com base no seu conhecimento dos acontecimentos antes que ocorram, mas tal racionalismo perde de vista toda a ideia de amor.

Conhecer e amar muitas vezes tem o mesmo significado nas Escrituras (cf. I Cor. 8:3; I João 4:7, 8). Conhecer é frequentemente um termo usado para as relações sexuais íntimas (Gên. 4:17; Núm. 31:18; Luc. 1:34, IBB antiga), e é um passo fácil para o amor baseado na aliança entre Deus e seu povo (Gên. 18:19; Am. 3:2; Os. 13:5; Jer. 1:5; Mat. 7:23). A premonição de Deus a respeito do homem antes que este conheça a Deus não torna a predestinação inevitável, como geralmente presume a tradição agostiniana-calvinista. É estranho como se dá pouca atenção às claras palavras de advertência escritas por Paulo: “Outrora, quando não conhecíeis a Deus, servíeis aos que por natureza não são deuses; agora, porém, que já conheceis a Deus, ou melhor, sendo conhecidos por Deus, como tomais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” (Gál. 4:8, 9). Mais tarde, este pensamento será harmonizado com a aparente exceção de 11:2.

O problema da predestinação nunca pode ser resolvido, se se presumir que, sem exceção, os que são conhecidos por Deus estão predestinados para a glória. O monergismo sempre termina em predestinação dupla ou no universalismo. Se Deus faz tudo, ele é responsável por tudo o que acontece; mas, se o homem é responsável pela reação que tem, então o resultado da parte do homem é condicional. A predestinação condicional significa que o verdadeiro destino do homem é alcançado apenas onde há fé o tempo todo, até que se alcance o alvo. Salvação é um caminhar, e não um salto, em que Deus sustém o homem pelos cabelos! É uma comunhão, e não fatalismo. O destino dos que permanecem em Cristo é o destino de Cristo. Ele é o predestinado, e o crente é predestinado nele (cf. At. 2:23; 4:28). As claras palavras de Paulo, aqui, devem ser colocadas no contexto da graça, mas não devem ser separadas da fé.

Deus “nos predestinou para sermos filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade, para o louvor da glória da sua graça, a qual nos deu gratuitamente no Amado” (Ef. 1:5, 6). O homem não está em dificuldades porque é número seis, nem vai para o céu porque é número sete (jogo de palavras em inglês). Ele estará em dificuldades se não reagir de maneira positiva e permanente à graça de Deus, e irá para o céu se crê e continuar a crer em Jesus Cristo. Da mesma forma como alguém chega a Curitiba porque embarcou em um avião destinado a Curitiba, uma pessoa também chega à glória porque permanece em Cristo, que foi predestinado à glória. Predestinação significa que sabemos para onde estamos indo, antes de chegarmos lá. Predestinação será o tema dos capítulos 9 a 11.

Paulo não cai na incongruência dos fariseus, como sugere Knox, pois dificilmente ele usaria o termo destino. Os fariseus ensinavam que tudo depende do destino e de Deus; não obstante, a escolha do certo ou errado, em sua maior parte, cabe ao indivíduo (Josefo, Guerras, II.8.14). Bruce chama a atenção para uma opinião semelhante na Regra da Comunidade (Rule of the Community) de Qumran: “Do Deus do Conhecimento vem tudo o que é e que será. Mesmo antes que eles existissem ele estabeleceu todo o seu destino, e quando, como era ordenado para eles, vieram a existir, é de acordo com o Seu glorioso desígnio que cumprem a sua obra.”

Ser conformes à imagem de seu Filho combina duas palavras gregas, que têm significado afim. Ambas estão associadas com a morte e ressurreição de Cristo. Paulo sentia dores de parto pelos vacilantes gálatas, até que Cristo “fosse formado” neles (Gál. 4:19). O corpo redimido se conformará com o corpo glorioso do Senhor ressuscitado, que voltará (Fil. 3:21). O padrão de conformação ou de semelhança é a humilhação e exaltação de Cristo (Fil. 2:1-11). Conformidade com Cristo, na sua morte e ressurreição, é usada, portanto, como fonte de consolo no meio do sofrimento (Fil. 3:10, IBB antiga).

A palavra imagem é também uma ideia escatológica. “E, assim como trouxemos a imagem do terreno, traremos também a imagem do celestial” (I Cor. 15:49). Esta e todas as outras passagens a respeito da imagem de Deus estão arraigadas em Gênesis 1:26, 27, indicando que o homem não se conforma plenamente com a imagem de Deus antes da ressurreição. Todos os homens têm a imagem de Deus na criação, o que lhes dá domínio sobre tudo o que Deus criou, mas o homem redimido ainda não ostenta plenamente a dinâmica imagem de Deus em amor. A imagem formal nunca é perdida, e a imagem material está sendo recebida no processo da transformação. “Mas todos nós, com rosto descoberto, refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor” (II Cor. 3:18; cf. Col. 3:10). A expressão “transformados... na mesma imagem” é literalmente “metamorfoseados na mesma imagem”, que é um comentário tanto da palavra “forma” como da palavra “imagem”. Cristo é “a imagem de Deus” (II Cor. 4:4), e conformar-se com Cristo é ser transformado na imagem de Deus.

A ideia do primogênito também está relacionada com a ideia de imagem. Cristo “é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação” (Col. 1:15). O uso de primogênito no verso 29 é mais próximo do uso de Colossenses 1:18, onde Cristo é chamado de “o princípio, o primogênito dentre os mortos”. Primogênito tem em si a ideia de prioridade e proeminência. Colossenses 1:15-20 (Bíblia de Jerusalém) é um hino cristão, e as palavras gregas traduzidas como “primogênito” e “preeminência” formam um jogo de sons. O primogênito é o filho proeminente, que recebe a herança e a autoridade do Pai (cf. Heb. 1:6; Apoc. 1:5). O antigo arianismo usava esta palavra para argumentar que “houve um tempo em que o Filho de Deus não existia”, mas isto foi corretamente condenado como heresia. Lightfoot há muito tempo já estabeleceu a ideia de proeminência ou primazia como significado desse termo.[1] Como irmãos de Cristo, todos os crentes compartilharão do seu destino (cf. Heb. 2:10-17), e Cristo é o Filho proeminente entre os filhos de Deus (cf. 1:3).

A realização histórica do propósito eterno de Deus é expressa nos quatro tempos aoristos (v. 30), visto que o ponto de vista é do eterno propósito de Deus, que alcançava o passado. A forma literária é a de sorites, uma série “em que o predicado lógico de uma cláusula se torna o sujeito lógico da seguinte” (Bruce). A sugestão de um hino, feita por Schille, é mais clara aqui do que para o versículo anterior:

 

E aos que predestinou,

a estes também chamou;

e aos que chamou,

a estes também justificou;

e aos que justificou,

a estes também glorificou.

 

A predestinação é repetida do versículo anterior, mas chamado, justificação e glorificação são acrescentados. O chamado, que pertence especialmente ao começo da vida cristã, já foi notado (1:1, 6, 7; 8:28), e surgirá novamente em relação à predestinação (11:29; cf. 1 Tess. 4:7; I Cor. 7:18; Gál. 1:6; Col. 3:15). Justificação, o tema dos capítulos 1 a 4, descreve todo o estado da vida atual de fé. Glorificação tem referência futura ao tempo quando os santos de Deus, que como pecadores ficaram aquém, participarão da glória manifestada em Jesus Cristo (3:23; 5:2; 8:18; cf. Col. 3:4). Graus de glória já estão raiando (II Cor. 3:18).

 

Fonte: Comentário Bíblico Broadman, Vol. 10, pp. 259-262



[1] St. Paul’s Epistles to the Colossians and Philemon (London: Macmillan, 1875), p. 146-150 a respeito de Colossenses 1:15.

 

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Dale Moody - Arrependimento e Chamado

  

O chamado ao arrependimento nem sempre resulta em salvação. “Porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos” (Mt 22.14). Ainda assim, o evangelho deve ser pregado a todas as nações antes do fim dos tempos (24.14). Os discípulos de Jesus são comissionados a fazer “discípulos de todas as nações” (28.19), todavia é reconhecido que muitas pessoas irão ao Geena (25.31-46). A única coisa certa é que o chamado é para todos, mas nem todos serão salvos.

O chamado tem um lugar especial na teologia de Paulo. Uma passagem apocalíptica distinguia entre aqueles que “padecerão eterna perdição, ante a face do Senhor e a glória do seu poder” e aqueles por quem ele orou para que Deus tornasse “dignos da sua vocação,” todavia não há uma palavra sobre a dupla predestinação. Os “dignos da sua vocação” claramente são “todos os que creem (porquanto o nosso testemunho foi crido entre vós)” (2Ts 1.9-11).

Os chamados em Coríntios parecem idênticos aos santos que creram, mas procuramos em vão por alguma sugestão de que há um chamado irresistível (1Co 1.1, 2, 24, 26). Há muitas situações na vida nas quais o chamado é para servir ao Senhor, mas o chamado para servir é o mesmo que o chamado para ser salvo (7.20-22). É uma distorção do evangelho ensinar que todos são chamados para ser salvos mas somente alguns para servir. Os chamados são aqueles que ouviram e creram, mas não há nenhuma sugestão de que alguns que ouviram foram predestinados à incredulidade de uma forma predeterminada.

O carro-chefe do Calvinismo com sua doutrina de um chamado irresistível tem sido a carta de Paulo a Roma. A primeira referência aos chamados é muito semelhante àquelas já observadas em Corinto (1.1, 6), mas duas passagens requerem análise especial. Rm 8.28 diz que Deus “coopera para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (New English Bible), todavia por séculos a Versão King James de 1611 tem sido seguida, que diz que “todas as coisas contribuem juntamente para o bem,” como se a cooperação humana fosse excluída do propósito de Deus. A cooperação humana da fé, esperança e amor tem sido atacada como sinergismo, todavia Paulo usa o verbo grego synergei! Então, Rm 8.29f é interpretado como se a predestinação, o pré-conhecimento, o chamado, a justificação e a glorificação fossem uma cadeia dourada de causa e efeito, no entanto Paulo deixa muito claro que os que foram conhecidos por Deus podem regressar ao estado de escravidão do qual vieram (Gl 4.8-11).

A última e desesperada defesa do determinismo está em Rm 11.29, onde a Revised Standard Version diz que “os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis”. Aqui a Versão King James é preferível quando diz que “os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento,” pois o grego ametameleta significa “não arrependido”. O ponto é que Deus não modificou sua aliança com Israel e transferiu todas as suas promessas à igreja, uma opinião defendida pelo Calvinismo conservador. Deus tem um propósito tanto em Israel como entre os gentios, mas seu plano inclui a resposta humana da fé antes dele poder ser completado. Quando a paciência de Deus é relacionada a um correto entendimento da doutrina da predestinação de Paulo, o refúgio calvinista do determinismo vem abaixo. A responsabilidade humana dificilmente pode ser mais exagerada do que na própria declaração de Paulo sobre como a paciência de Deus busca levar as pessoas ao arrependimento. Rm 2.4-10 não requer nenhuma ideia estranha a fim de se tornar clara. É citado integralmente no próximo parágrafo.

 

Ou desprezas tu as riquezas da sua benignidade, e paciência e longanimidade, ignorando que a benignidade de Deus te leva ao arrependimento? Mas, segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras ira para ti no dia da ira e da manifestação do juízo de Deus; o qual recompensará cada um segundo as suas obras; a saber: a vida eterna aos que, com perseverança em fazer bem, procuram glória, honra e incorrupção; mas a indignação e a ira aos que são contenciosos, desobedientes à verdade e obedientes à iniquidade;  tribulação e angústia sobre toda a alma do homem que faz o mal; primeiramente do judeu e também do grego; glória, porém, e honra e paz a qualquer que pratica o bem; primeiramente ao judeu e também ao grego.

 

A seção subsequente sobre salvação e predestinação continuará a discussão sobre paciência e predestinação no propósito de Deus em Rm 9.22. Rm 2.4-10; 8.28-30; 9.22; 11.29 devem ser lidos como uma unidade.

É bastante instrutivo observar que Paulo ensina Timóteo a usar o tipo de paciência pastoral que o próprio Deus usa para trazer as pessoas ao arrependimento (2Tm 2.24-26). Isto dificilmente é paciência irresistível, pois há o perigo de que até mesmo um bispo recém convertido tenha o mesmo destino que o diabo (1Tm 3.6f). Sem dúvida alguns dos dramas medievais estavam corretos quando retratavam alguns pomposos bispos! Prelados orgulhosos e professores da atualidade não estão além desta possibilidade. Até o apóstolo Paulo não pensava que estava (1Co 9.27).

O chamado de Deus é para cima e para frente, em direção ao prêmio, mas Paulo sentia que, apesar das dificuldades, tinha que se esforçar. Paulo suplicou aos seus leitores a viverem de uma maneira digna do chamado com que tinha sido chamados (Ef 4.1). Isto deve ser baseado nas crenças que unificam, uma das quais é “uma só esperança da vossa vocação” com que eles foram chamados (4.4). Deus “nos salvou, e chamou com uma santa vocação,” mais isto não exclui a possibilidade de que alguns possam abandonar o chamado (2Tm 1.9, 15).

Os crentes hebreus a quem a carta de Hebreus é escrita eram “irmãos santos, participantes da vocação celestial” (3.1), como também “participantes do Espírito Santo” (6.4), todavia havia a possibilidade de que os imaturos entre eles cometessem apostasia (2.1-4; 3.12-14; 5.11-6.20; 10.26-31; 12.12-17).

Se alguém não esquecer que foi limpo de seus antigos pecados e ficar cego espiritualmente, ele deve confirmar seu chamado e eleição pelo crescimento na graça (2Pe 1.5-11). Se fizer seu chamado e eleição firmes em maturidade cristã, ele nunca abandonará o caminho da verdade e da justiça (1.10; 2.2, 21).

Reconhecer que somos “chamados para a comunhão de seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor” (1Co 1.9) não exige a conclusão que outros não podiam responder ao chamado. O esforço para confinar 2Pe 3.9 aos eleitos apenas requer uma exegese que não é óbvia. Conforme essa interpretação restritiva, Deus seria paciente somente com os eleitos e não desejaria que alguns dos eleitos perecesse. Ao contrário, parece que Deus é paciente com todas as pessoas enquanto chama cada uma e todas ao arrependimento.

Quando o chamado é considerado nas páginas do Novo Testamento, livre dos credos do Calvinismo, não há necessidade de distinções refinadas entre um chamado externo na revelação geral e a pregação do Evangelho em um “chamado eficaz, irresistível.”

Há somente um chamado de Deus na revelação geral e na pregação da revelação especial na Escritura, e sempre que o homem ouvir o chamado, ele pode tornar-se eficaz quando houver a resposta de arrependimento e fé (At 20.21).

 

Fonte: The Word of Truth, 313-316

 

Tradução: Paulo Cesar Antunes