quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Série Cosmovisões: Definindo o Materialismo e demonstrando suas fraquezas

Parte 2 – Fazendo distinção entre o Materialismo emergente e o Materialismo eliminativo

Por Walson Sales

No cenário contemporâneo da filosofia da mente e da apologética cristã, o materialismo tem sido uma cosmovisão amplamente debatida, especialmente por sua tentativa de explicar todos os fenômenos — inclusive os mentais — por meio de causas físicas. Entretanto, dentro desse campo materialista, surgem variações que tentam lidar com as dificuldades inerentes à teoria, entre as quais se destacam o materialismo eliminativo e o materialismo emergente. O filósofo Mark M. Hanna, em seu capítulo “O que é o Materialismo e qual é sua falha essencial?” presente na obra Guia Geral da Apologética Cristã, editada por Joseph M. Holden, oferece uma análise crítica e rigorosa dessas correntes materialistas, evidenciando suas fraquezas lógicas e metafísicas.

Este artigo tem por objetivo apresentar e distinguir essas duas versões do materialismo, analisar suas respectivas concepções sobre a mente, discutir os dois tipos de emergência propostos como explicações e, por fim, demonstrar a inconsistência de ambas as teorias a partir de argumentos filosóficos e da experiência comum.

1. O Materialismo Eliminativo: Conceito e Autocontradição

O materialismo eliminativo representa uma forma radical de fisicalismo que nega a existência de estados mentais como consciência, intenções, qualia e significados (Qualia são as experiências subjetivas e pessoais que temos, como o gosto do chocolate, a dor de cabeça ou a cor vermelha vista por nossos olhos — algo que só quem sente pode realmente saber como é). Segundo os defensores dessa corrente, todas essas categorias são ilusões criadas por processos cerebrais e, portanto, não têm realidade objetiva.

Mark Hanna destaca a contradição inerente a essa proposta. Afirmar que “tudo é físico” exige um ato consciente de atribuição de sentido — uma ação que pressupõe consciência, linguagem e intencionalidade, todos fenômenos que o materialismo eliminativo tenta negar. Logo, esse tipo de materialismo se mostra autorrefutável, pois utiliza os próprios recursos que nega para tentar sustentar sua tese.

O argumento pode ser formalizado da seguinte forma:

A. Se o materialismo eliminativo é verdadeiro, então a consciência é uma ilusão.

B. Mas não pode haver ilusão sem um sujeito consciente a quem seria uma ilusão.

C. Logo, o materialismo eliminativo é falso.

Essa dedução revela a falha essencial do eliminativismo: ele requer a existência da consciência para negar sua realidade. Além disso, qualquer afirmação verdadeira requer intencionalidade, algo que não pode ser reduzido a causas físicas cegas, como pretendem os materialistas eliminativos.

Como observa o filósofo J.P. Moreland: “O argumento de que não existem argumentos é autodestrutivo; e o argumento de que não existe mente é, em si, um ato da mente” (MORELAND, 2009, p. 78).

2. O Materialismo Emergente: Uma Tentativa de Salvar o Fisicalismo

Diante da dificuldade de sustentar a negação da mente, muitos filósofos materialistas têm migrado para uma posição aparentemente mais moderada: o materialismo emergente. Essa corrente sustenta que a mente não é idêntica ao cérebro, mas que emerge dele como um fenômeno superior — um epifenômeno — quando o cérebro atinge um certo nível de complexidade.

Nesse modelo, embora a mente não seja física em si mesma, ela seria inteiramente dependente do cérebro, controlada por ele e sem qualquer capacidade causal recíproca. A mente, portanto, seria uma espécie de subproduto passivo das atividades cerebrais.

Mark Hanna argumenta que esse modelo falha ao negar a causalidade descendente da mente sobre o corpo, algo que é diretamente evidenciado na experiência cotidiana. A capacidade de tomar decisões, refletir, mudar de ideia ou agir deliberadamente não pode ser reduzida a impulsos elétricos ou conexões sinápticas.

Um argumento contra o materialismo emergente pode ser estruturado assim:

I. Se o materialismo emergente é verdadeiro, a mente é um epifenômeno que não possui poderes causais.

II. Mas a interação mente-corpo causal mútua é um dado imediato da experiência que é conhecido melhor do que qualquer teoria que o negasse.

III. Portanto, o materialismo emergente é falso.

Dessa forma, o materialismo emergente preserva a existência da mente apenas de forma superficial, negando-lhe as características que a tornam significativa e operante.

3. Os Dois Tipos de Emergência: Uma Tentativa Frustrada

Os proponentes do materialismo emergente recorrem com frequência a analogias para explicar a emergência da mente. A mais comum envolve a formação da água: embora nem o hidrogênio nem o oxigênio sejam úmidos, a junção desses elementos origina uma nova propriedade — a umidade — na molécula de H₂O.

Contudo, essa analogia falha ao tentar explicar a consciência. A umidade é uma propriedade física que pode ser mensurada e localizada. Já a mente é intrinsecamente diferente de qualquer propriedade física. Possui subjetividade, intencionalidade, autoconsciência, qualia e livre-arbítrio — elementos que não se explicam por composição ou complexidade material.

Mais apropriada seria uma analogia envolvendo diferenças ontológicas radicais, como “o pessoal do impessoal” ou “a inteligência da não inteligência”. Mas, como Hanna afirma, tais analogias apenas agravam o problema: são igualmente inexplicáveis e evidenciam que o materialismo emergente carece de base explicativa adequada.

Como destaca o filósofo Angus Menuge: “Dizer que a mente emerge do cérebro apenas quando ele atinge um certo nível de complexidade é uma confissão de ignorância disfarçada de explicação” (MENUUGE, 2004, p. 94).

4. Implicações Filosóficas e Apologéticas

A distinção entre materialismo eliminativo e emergente não resolve os principais desafios impostos à cosmovisão materialista. Ambas as versões falham em explicar adequadamente os fenômenos mentais e acabam, inevitavelmente, desvalorizando ou negando características humanas fundamentais, como a consciência, a intencionalidade, o pensamento racional e o livre-arbítrio.

Do ponto de vista apologético, essas falhas apontam para a insuficiência do naturalismo materialista em oferecer uma descrição coerente da realidade humana. O Cristianismo, por sua vez, ao postular que os seres humanos são constituídos por corpo e alma, mente e matéria, oferece uma explicação ontológica mais robusta e condizente com a experiência comum.

Como observa o apologista William Lane Craig: “O problema da consciência é a ruína do materialismo. A existência da mente imaterial é melhor explicada por um Criador pessoal que nos dotou de alma racional” (CRAIG, 2013, p. 126).

Conclusão

A análise das distinções entre materialismo eliminativo e materialismo emergente mostra que, embora tentem preservar o fisicalismo como explicação abrangente da realidade, ambos os modelos falham em sustentar a existência e operação da mente humana. O primeiro nega sua realidade, o segundo a admite como fenômeno passivo. Nenhum dos dois é capaz de explicar satisfatoriamente as propriedades não físicas da mente, como qualia, intenção, autoconsciência e liberdade.

A mente continua sendo um desafio profundo para qualquer sistema filosófico. O Cristianismo, ao postular uma mente criada à imagem de um Deus racional, oferece uma explicação que preserva tanto a dignidade humana quanto a possibilidade de conhecimento, liberdade e moralidade.

Bibliografia utilizada e sugerida

CRAIG, William Lane. Em Guarda: Defenda a Fé Cristã com Razão e Precisão. São Paulo: Vida Nova, 2013.

HANNA, Mark M. O que é o Materialismo e qual é sua falha essencial? In: HOLDEN, Joseph M. Guia Geral da Apologética Cristã. Porto Alegre, RS: Chamada, 2023.

MENUUGE, Angus. Agents Under Fire: Materialism and the Rationality of Science. Lanham, MD: Rowman & Littlefield Publishers, 2004.

MORELAND, J. P. Consciência e a Existência de Deus. São Paulo: Vida Nova, 2020.

MORELAND, J. P. The Soul: How We Know It's Real and Why It Matters. Chicago: Moody Publishers, 2014.

GOETZ, Stewart; TALIAFERRO, Charles. A Brief History of the Soul. Malden: Wiley-Blackwell, 2011.

NAGEL, Thomas. Mind and Cosmos: Why the Materialist Neo-Darwinian Conception of Nature is Almost Certainly False. Oxford: Oxford University Press, 2012.

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