Por Walson Sales
A relação entre Brasil e Israel pode parecer um fenômeno moderno, fortalecido pelas relações diplomáticas e pelo apoio mútuo em diferentes contextos políticos e culturais (Não no contexto político atual, pois é evidente que o governo brasileiro atual adota uma postura abertamente antissemita). No entanto, algumas teorias sugerem que essa conexão pode ser muito mais antiga do que se imagina. De acordo com registros históricos e hipóteses controversas, os antigos fenícios e hebreus poderiam ter chegado ao território brasileiro séculos antes do descobrimento oficial em 1500.
Estudiosos, como Jacques Ribemboim em História dos Judeus de Pernambuco, bem como antropólogos e historiadores do passado e do presente, levantam questões sobre a influência judaica no Brasil pré-colonial. Há nomes de rios, estados e até palavras indígenas que alguns pesquisadores associam a termos hebraicos e fenícios. Essa tese, embora ainda carente de provas concretas amplamente aceitas pela comunidade acadêmica, suscita um debate instigante sobre os primórdios da presença semítica no continente americano.
1. As Relações Entre Hebreus e Fenícios: Uma Base para a Teoria
Durante o reinado de Salomão, no século X a.C., os hebreus e os fenícios mantinham relações comerciais estreitas. Os fenícios, exímios navegadores, controlavam uma vasta rede de comércio marítimo que se estendia por todo o Mediterrâneo e além. A Bíblia menciona que o rei Hirão de Tiro fornecia madeira de cedro e especialistas em navegação para os hebreus, e há indícios de que suas embarcações exploravam territórios distantes em busca de metais preciosos e outros bens.
Algumas teorias sugerem que, ao cruzarem o Estreito de Gibraltar, os fenícios e hebreus poderiam ter sido levados pelas correntes marítimas do Atlântico até o litoral brasileiro. Essa hipótese se apoia em registros antigos que mencionam terras longínquas, ricas em ouro e recursos naturais, como a lendária Ofir (1 Reis 9:26-28), cuja localização permanece um mistério. Perceba que, se essa teoria estiver correta, o lendário ouro de Ofir pode ter vindo do Brasil.
2. Indícios Linguísticos e Toponímicos no Brasil
Um dos argumentos mais intrigantes para a suposta presença judaico-fenícia no Brasil está na toponímia, ou seja, na origem dos nomes de rios, estados e cidades brasileiras. Alguns exemplos frequentemente citados incluem:
- Rio Solimões: Supostamente derivado de Solomon (Salomão).
- Amazonas: Relacionado a birkat-hamazon, expressão hebraica que significa "bênção do sustento".
- Goiás: Associado à palavra hebraica goim, que significa "povos" ou "nações".
- Recife: Embora muitos atribuam sua origem ao árabe (racif), há quem defenda que venha do hebraico ratzif, que significa "abrigo" ou "baía".
Além disso, algumas palavras das línguas indígenas teriam semelhanças fonéticas e semânticas com termos hebraicos, um fenômeno que alguns pesquisadores, como Jane Bichmacher de Glasman, consideram digno de estudo.
3. Relatos Históricos e Fontes Antigas
Ao longo da história, diferentes estudiosos levantaram hipóteses sobre a presença de povos semíticos na América antes da chegada dos europeus. No século XVII, Roberto Comtaeus Nortmannus e os arqueólogos Ludwig (1644) e Georg Horn (1652) mencionaram essa possibilidade.
No século XX, Bernardo de Azevedo da Silva Ramos e Schwenhagen expandiram essa tese, sugerindo que os fenícios poderiam ter cruzado o Atlântico seguindo as correntes marítimas do Golfo da Guiné. No Ceará, o cônego Raymundo Ulysses de Pennafort chegou a argumentar que a língua tupi teria origens hebraicas e sânscritas, e que os indígenas brasileiros poderiam ser descendentes de tribos semíticas da antiguidade.
No entanto, essas ideias enfrentam forte resistência acadêmica devido à falta de evidências arqueológicas sólidas. O historiador Alfredo de Carvalho, em *Estudos Pernambucanos* (1907), criticou a adoção dessas hipóteses sem critérios científicos rigorosos.
4. A Conexão com os Manuscritos Jesuíticos e Fontes Coloniais
Alguns missionários jesuítas também registraram semelhanças entre os costumes indígenas e tradições judaicas. Práticas como purificações rituais, certas regras alimentares e crenças espirituais foram comparadas a elementos encontrados no judaísmo antigo.
O antropólogo Caesar Sobreira identificou um trecho curioso no Diálogos das Grandezas do Brasil (1618), de Ambrósio Fernandes Brandão, onde um personagem afirma que os nativos brasileiros descendem de antigos israelitas que cruzaram os mares. Embora essa passagem tenha um caráter especulativo, reforça a ideia de que a conexão entre os hebreus e o Brasil tem sido cogitada há séculos.
Conclusão
A hipótese de uma presença judaico-fenícia no Brasil antigo continua sendo um tema fascinante, embora não comprovado. A ausência de evidências arqueológicas concretas impede sua aceitação pela comunidade acadêmica, mas os indícios linguísticos e relatos históricos antigos tornam a discussão relevante.
Seja essa teoria verdadeira ou não, o fato é que a presença judaica no Brasil, desde a colonização até os dias atuais, é inegável e deixou marcas profundas na cultura e na história do país. Como destacou Jacques Ribemboim em *História dos Judeus de Pernambuco*, a influência judaica pode ser rastreada desde os primórdios da colonização, com a presença de cristãos-novos e a participação de judeus em importantes ciclos econômicos, como o do pau-brasil e do açúcar. Desde Gaspar da Gama, piloto do navio da viagem de Pedro Álvares Cabral, até Fernão de Noronha, o primeiro judeu que arrendou o Brasil à Coroa Portuguesa para a extração do pau-brasil, a presença judaica foi fundamental nos primeiros empreendimentos históricos e econômicos do país.
Mesmo que a conexão entre Brasil e Israel remonte apenas à era colonial, e não à antiguidade, a relação entre os dois países segue sendo um tema de grande interesse histórico e cultural. Afinal, o estudo das origens sempre nos leva a repensar o passado e compreender melhor a nossa identidade.
Além das teorias sobre a presença fenícia e hebraica no Brasil, um dos enigmas mais fascinantes é a Pedra da Gávea, no Rio de Janeiro. Inscrições enigmáticas esculpidas em sua face intrigam pesquisadores há décadas. Alguns estudiosos sugerem que os caracteres seriam fenícios, possivelmente mencionando um rei de Tiro. Se confirmada a origem semítica dessas inscrições, a história da presença judaica e fenícia no Brasil ganharia uma nova e surpreendente dimensão. Seria esse um vestígio concreto das navegações antigas no Atlântico Sul?
Referências
- RIBEMBOIM, Jacques. História dos Judeus de Pernambuco. Recife: CEPE Editora, 2023.
- SOBREIRA, Caesar. Estudos sobre os Judeus no Brasil Colonial. Recife: UFPE, 2019.
- CARVALHO, Alfredo de. Estudos Pernambucanos. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1907.
- PENNAFORT, Raymundo Ulysses de. A Língua Primitiva e as Raízes Hebraicas no Brasil. Fortaleza, 1900.
- GLASMAN, Jane Bichmacher. A Presença Judaica no Brasil Colonial. São Paulo: Editora Sêfer, 2017.
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