Por Walson Sales
A presença judaica no Brasil remonta aos primórdios da colonização, exercendo um papel crucial na economia e na formação cultural do Nordeste. O livro História dos Judeus de Pernambuco, de Jacques Ribemboim, destaca como os cristãos-novos — judeus convertidos ao cristianismo sob pressão da Inquisição — foram protagonistas de diversos ciclos econômicos, desde a exploração do pau-brasil até a ascensão da indústria açucareira. Pouco se fala, no entanto, sobre o fato de que o primeiro arrendatário oficial do Brasil foi um cristão-novo: Fernão de Noronha. Neste artigo, exploraremos esse capítulo pouco conhecido da história brasileira, suas implicações e o impacto da presença judaica na formação econômica e cultural do país.
1. O "aluguel" do Brasil: o privilégio de Fernão de Noronha
Em 1502, o rei de Portugal, Dom Manuel I, concedeu a Fernão de Noronha o arrendamento do Brasil, permitindo-lhe explorar as riquezas da terra, em especial o pau-brasil. Esse acordo fez com que, por um período, o Brasil estivesse sob o domínio econômico de um único homem, um cristão-novo.
A concessão não foi apenas um ato isolado, mas sim parte da estratégia portuguesa de terceirizar a exploração colonial para particulares, evitando altos custos ao Estado. Noronha, um empresário influente da época, organizou expedições e estabeleceu um sistema de extração de madeira que envolvia o uso de mão de obra indígena, além de técnicas comerciais avançadas para exportação do pau-brasil para a Europa.
A própria origem do nome "Pernambuco" está ligada a esse contexto. Os indígenas chamavam o local de "Pernambuka", uma adaptação da expressão "Boca de Fernão", em referência ao local onde os navios de Noronha atracavam para carregar o valioso pau-brasil.
2. Judeus no comércio colonial: os primeiros investidores do Brasil?
A presença de cristãos-novos no comércio colonial não era um fenômeno isolado. Muitos judeus convertidos ao cristianismo foram pioneiros em atividades econômicas fundamentais para a colônia. Eles possuíam redes comerciais bem estabelecidas, tanto na Península Ibérica quanto em outros centros mercantis, o que lhes permitiu atuar como intermediários no comércio atlântico.
Embora não existam registros diretos sobre a prática religiosa de Noronha no Brasil, sabe-se que muitos cristãos-novos mantinham em segredo suas tradições judaicas. No caso dos colonos que vieram posteriormente, há registros de que, com o tempo, as práticas judaicas começaram a ser documentadas na região, especialmente a partir de 1537, com o surgimento das vilas e a estruturação do ciclo do açúcar.
3. A transição para o ciclo do açúcar e a presença judaica
O fim do ciclo do pau-brasil e a ascensão do ciclo do açúcar marcaram uma nova fase para os cristãos-novos. Se, no início, os judeus ou descendentes desempenharam papel crucial na extração de madeira, a partir do século XVI eles se tornaram figuras centrais na economia açucareira.
Muitos deles atuavam como mercadores, financistas e até proprietários de engenhos, utilizando suas conexões internacionais para exportar o açúcar brasileiro para a Europa. Essa influência foi tão grande que, durante a ocupação holandesa (1630-1654), quando os judeus puderam praticar sua fé abertamente, Recife se tornou o primeiro lugar do continente americano a ter uma sinagoga oficial, a Kahal Zur Israel. Recomendo veementemente a visita!
4. Implicações e reflexões históricas
A história de Fernão de Noronha e do "ciclo da madeira judaica" mostra que a influência judaica no Brasil é muito mais antiga do que se imagina. A concessão do Brasil a um cristão-novo evidencia como judeus convertidos ao cristianismo desempenharam um papel essencial na exploração e no desenvolvimento inicial da colônia.
Além disso, essa história nos faz refletir sobre como diferentes grupos participaram da construção do Brasil, muitas vezes sob imposições religiosas e sociais. A perseguição da Inquisição fez com que muitos desses personagens fossem apagados dos registros históricos ou tivessem suas contribuições minimizadas. No entanto, a presença judaica foi determinante para o crescimento econômico e cultural do país.
Conclusão
Poucos brasileiros sabem que, nos primeiros anos da colonização, um cristão-novo foi o responsável por explorar economicamente o Brasil. Fernão de Noronha e outros judeus convertidos desempenharam um papel vital na história econômica do país, primeiro no ciclo do pau-brasil e, posteriormente, no ciclo do açúcar.
A história do Brasil é rica em diversidade e marcada por influências de diferentes povos e culturas. Resgatar a trajetória dos cristãos-novos e dos judeus no período colonial nos ajuda a compreender melhor as complexidades da nossa formação histórica e valorizar a contribuição de grupos que, por séculos, foram marginalizados nos registros oficiais.
Referências
RIBEMBOIM, Jacques. História dos Judeus de Pernambuco. Recife: CEPE editora, 2023.
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